Existe casamento feminista?

Existe casamento feminista?

Se o casamento é uma união que reforça os papéis de género, é possível ter um casamento feminista?

O sexismo é algo que aprendemos através da nossa socialização que se manifesta em virtualmente todas as esferas das nossas vidas: em casa; no trabalho; na rua; etc.

Em todos os espaços, em todos os aspectos, muito das nossas escolhas são feitas tendo como base ideias sexistas enraizadas em nós. Eu sou mulher, logo tenho de me comportar de uma certa forma. Eu sou mulher, logo não devo dizer tal coisa. Eu sou mulher, logo preciso de ter determinada característica. Enfim, a forma como eu sinto, vivo e expresso o meu género é adquirida, é uma manifestação do meio onde vivi.

Uma das questões que me ocorre quando penso em mim, como mulher e como feminista, é a vivência do casamento. Na medida em que o feminismo surge da necessidade de abolir por completo a diferença em os géneros, e em que o casamento é uma instituição baseada numa série de costumes e tradições machistas, pode haver um casamento feminista? Se sim, como seria? O que seria de diferente? Ainda poderíamos chamar essa união de ‘casamento’?

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A esposa deve cuidar do seu marido como se fosse filho? Fonte: Flávia Azevedo

Mas talvez antes disso, a pergunta seja: num mundo em que ambos os géneros tenham tratamentos iguais, haverá casamento?

O casamento é o cruzar do Capitalismo e do Sexismo.

O casamento serve para garantir a sobrevivência de ambas as partes e suas famílias. A prova disso são as facilidades em conseguir contractos de arrendamento; compra de imóveis e empréstimos quando somos casados.

Mesmo o casamento tradicional do Sul de Moçambique, o lobolo, prevê certos direitos no caso de separação do casal ou morte de uma das partes. Isto para garantir que nenhuma família saia ‘em prejuízo’.

Já o Sexismo manifesta-se sobretudo na desvalorização da mulher solteira, especialmente a partir de uma certa idade, visto que o valor da mulher assenta sobretudo na sua função reprodutiva e afectiva.

Para além de haver uma pressão generalizada para a mulher em idade fértil casar, há também uma grande responsabilização da mulher no que toca ao sucesso ou insucesso do casamento. O homem é visto como um acessório, e a mulher a peça central na manutenção da casa, educação dos filhos, gestão de conflitos, etc.

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Você ‘não’ tem que casar. Fonte: Blogueiras Feministas

O casamento é, por princípio, a união entre dois cidadãos – geralmente um homem e uma mulher-  para a formação de uma família.

O casamento produz a heteronormatividade. Reforça a heteronormatividade. Valida a heteronormatividade.

Descrevendo direitos e deveres distintos, o casamento prescreve os papéis que cada uma das partes deve exercer. Por um lado formalmente, uma vez que se estabelece por um contracto, e por outro, informalmente, através da nossa socialização que tem expectativas daquilo que uma esposa deve ser/ fazer e daquilo que deve ser/ fazer um esposo.

Mesmo em uniões homossexuais é comum vermos estes papéis sendo reproduzidos.

Por isso, o casamento é uma das ferramentas mais importantes e eficazes para a manutenção do Patriarcado. Afinal de contas, é no casamento que se definem os papéis de homem, mulher, pai, mãe, filho, filha, etc.

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Casamento machista tem salvação? Fonte: Escreva Lola Escreva

Claro que tudo isto é resultado de um processo histórico, mas ainda hoje assumimos que a mulher deixa de ser propriedade do seu pai, para passar a pertencer ao seu esposo. São resquícios de outros tempos que ainda se fazem sentir hoje.

Quando seremos propriedade de nós mesmas?

Eu não sei se eu, como mulher e feminista, poderei ser livre no casamento. Não sei se o casamento é um terreno fértil para as minhas ideias, o meu crescimento, para a mulher que me quero tornar. E mais, como seria o ‘esposo feminista’?

É difícil imaginar de facto um casamento em que um casal partilhe-se na sua essência, sem pensar no seu género, sem pensar nas expectativas criadas para que ‘aquilo’ – seja lá o que for – seja um casamento.

 

 

Lobolo aos olhos de hoje

O lobolo é uma cerimónia tradicional em que a família do noivo oferece um dote à família da noiva, celebrando assim a sua união.

Tenho notado já há algum tempo que hoje em dia, especialmente nos meios urbanos, há uma intepretação errada de vários elementos tradicionais da nossa cultura moçambicana.

Desde a chegada dos Europeus a África que houve uma demonização de tudo o que era estranho e bizarro quando comparado aos seus hábitos e costumes. E assim os modos das sociedades africanas foram ridicularizados e até proibidos, motivo pelo qual muitos rituais deixaram de ser praticados.

Um desses elementos mal interpretados aos olhos de hoje é o ritual matrimonial tradicional – o lobolo.

Como é que em Moçambique se dizia “casamento” antes de chegar a Igreja Cristã? Como é que se reconhecia a união entre duas pessoas antes de haver um “Estado”? O que era um “casamento”?

Temos de usar os olhos de ontem para procurarmos interpretações – e validade! – nos rituais hoje ou corremos o risco de viver acorrentados às ideias medievais que o Velho Continente nos passou.

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O lobolo é mutável, variável e adaptável. Fonte: Antropocoiso

A cerimónia do lobolo consiste numa oferta de bens em forma de gado, dinheiro, roupas e alimentos, entre outros à família (clã) da noiva. Após a aceitação e recepção destes bens por parte da sua família, a noiva passa a pertencer à família (clã) do noivo. Por esse motivo, aos olhos do colono, a mulher estaria a ser “vendida” e é essa narrativa que até hoje se mantém para rejeitar o ritual.

O dote oferecido servia de fundo comunitário para aquela família (clã). E de certa forma também de seguro, pois para anular a união seria necessário a devolução do dote, o que poderia pôr em causa toda a economia local.

Sempre ouvi o meu pai contar uma história que aconteceu há muitos anos em Homoíne (província de Inhambane) na aldeia onde ele cresceu. Um homem matou a sua própria irmã à catanada e foi enviado para S. Tomé & Príncipe, onde cumpriu a sua pena trabalhando como escravo para o regime colonial Português.

O motivo do assassinato foi o facto de a sua irmã ter manifestado a sua vontade em querer dissolver o seu matrimónio, o que obrigava a sua família a devolver o dote ao seu esposo. O seu irmão, por sua vez, já tinha usado grande parte do dote para lobolar a sua esposa, então teria ele também de se divorciar para devolver os bens.

Ou seja, o dissolução de uma união criava a dissolução de outras uniões em forma de cadeia, destruindo por completo a harmonia naquela sociedade. A situação levou o irmão à beira do desespero e terminou de forma trágica.

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Na Namíbia, Quénia e África do Sul, o lobolo chama-se lobola. Em Angola é o alambamento.

Estando inserido numa sociedade patriarcal (q.b.) o matrimónio tradicional não deixa de ser um fenómeno económico e de poder – como o matrimónio religioso cristão,- na medida em que serve de regulação social, pois o lobolo legitima a relação do casal e eleva o estatuto dos nubentes.

Para além disso, o lobolo estabelece uma família (garante descendência) e alberga também garantias que asseguram a vida e sobrevivência das famílias envolvidas no caso de morte de uma das partes.

Hoje em dia o lobolo, como qualquer outro ritual, já sofreu alterações na sua forma e no seu conteúdo, no entanto mantém o valor social que representa. É um dos elementos tradicionais que até as famílias mais modernas conseguiram manter, e por isso reforça o nosso sentido de Africanidade.

Por exemplo, no lobolo já se oferece um anel de ouro, que foi incorporado dos rituais da Igreja Cristã. A loiça feita de barro e madeira foi substituída pela porcelana (apesar de não servir para as orações e oferendas aos antepassados). Por outro lado houve símbolos africanos como o gado e as capulanas que sobreviveram a essas mutações.

Nos dias que correm é comum a realização do lobolo seguida do casamento religioso e/ou cerimónia civil, antes do copo d’água. Esta prática tem como objectivo a manutenção do nosso sentido de identidade e de compromisso com os antepassados.

Nas regiões mais rurais, o lobolo é um ritual que confere um reconhecimento social que as outras cerimónias (na Igreja, Mesquita, Conservatória, etc) não oferecem, pela dimensão de envolvimento da comunidade e ligação histórica e espiritual.

Tendo em conta estes factores, a “nova” Lei da Família já prevê o lobolo como uma cerimónia legítima, com o mesmo peso legal que o casamento civil.

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Hoje em dia é comum incorporar elementos tradicionais com os mais modernos.

O lobolo em Moçambique é uma prática que visa o reconhecimento matrimonial, isto é, garante a reprodução, estabilidade, compromisso, e estabelece os direitos e deveres entre um homem e uma mulher perante a comunidade.

Ao conotarmos o lobolo como uma simples transacção de compra e venda tiramos todo o simbolismo e importância que o ritual de facto tem. Estamos a olhar como o Europeu que aqui chegou olhou, sem ter sensibilidade para perceber as estruturas e crenças das sociedades da época.

Tal como entendemos, praticamos – e perdoamos! – o casamento religioso cristão, com todas as suas limitações, devemos também fazer o mesmo exercício ao olharmos para o lobolo.

É nosso dever descolonizar estas ideias ultrapassadas dos nossos próprios hábitos e costumes e encontrar formas de adaptar os rituais à nossa actualidade.