Mulheres com armas na mão

Mulheres com armas na mão

As Mulheres que foram à guerra e pegaram nas armas também merecem ser lembradas

Não podemos falar na emancipação da mulher sem falar na sua importância nas zonas de combate. No caso específico das lutas de libertação em África, vários países africanos se beneficiaram da sua presença em combate.

A presença das mulheres no mato, na guerrilha aconteceu de várias maneiras. Algumas aderiram porque foram com a família, com os parceiros; houve ainda as que aderiram aos movimentos de libertação por uma perspectiva de estudo e estratégia; houve as que foram obrigadas e houve também, como não podia deixar de ser, as que aderiram de foram voluntária por acreditarem na causa da auto-determinação das suas nações.

No entanto, grande parte dessas memórias foram apagadas e ficaram-se apenas as histórias dos heróis homens. E mesmo a história da presença das mulheres acabou sendo ofuscada pelo tom patriarcal que tomou, já que se vivia (ainda se vive) num contexto social de dominação masculina.

Infelizmente muito do que se conta hoje nos leva a crer que as mulheres foram aliciadas ou emparedadas pelos homens a fazerem parte da guerra, enquanto na verdade elas conquistaram esse espaço.

jpg_titina_e_mhlueres_de_luta_com_Cabral_3
A Mulher lutou pelo seu espaço na luta armanda. Fonte: Fundação Amílcar Cabral

O líder caboverdiano Amílcar Cabral admitiu, no Seminário de Quadros de 1969 que as mulheres foram se juntando aos homens, meio que de forma desorganizada, e que foram resistindo à pressão que havia para se afastarem. O PAIGC teve então de oficializar a sua presença na luta.

 

 

“(…) Portanto, o partido não pode fazer grande bazófia de que recrutou mulheres. Em geral, as mulheres é que vieram para a luta, o que dá muito mais valor à presença de mulheres no Partido.” – Amílcar Cabral

A mesma retórica encontramos em Moçambique em que se diz que foi o presidente Samora que “permitiu” que as mulheres pegassem nas armas, quando na verdade, elas enfrentaram todo o preconceito e barreiras criadas pelos colegas homens para estarem ali.

E para que os seus feitos não se apaguem da História, é importante que as lembremos delas, que falemos e enalteçamos a sua coragem e determinação. É também graças a elas que hoje usufruímos dos direitos que temos como cidadãos de plenos direitos.

Deolinda Rodrigues

20180324082455deolindaDe nome de guerra Langidila, Deolinda abandonou os estudos para se juntar à luta de libertação de Angola. Em 1961 começou a combater e em 1972 foi uma das co-fundadoras da Organização da Mulher Angola (OMA)

Como guerrilheira passou por Guiné Bissau, Congo Kinshasa e Congo Brazzaville. A 2 de Março de 1968 ao regressar de uma missão no mato foi capturada, juntamente com outras mulheres, por um grupo guerrilheiro angolano e executada em cativeiro. Celebra-se nessa data o Dia da Mulher Angolana.

Deixou os seus diários que relatam os desafios, vitórias e sacrifícios da sua vida como combatente da luta armada.

Emília Daússe

Emília Daússe foi uma guerrilheira moçambicana. Como jovem guerrilheira, foi das mais activas mulheres, tendo recrutado muitos combatentes na província de Tete.

Em pouco tempo alcançou posições de liderança. Após o seu treino político-militar na Tanzania em 1972, comandou um pelotão de cerca de 40 combatentes (homens e mulheres).

Morreu numa emboscada a 11 de Novembro de 1973.

Carmen Pereira

carmen-pereira-comissaria-politica-do-comite-inter-regional-do-sul-do-paigc_casa-comum_fms.png

Foi a primeira mulher presidente de um país africano quando em 1984 assumiu a presidência da Guiné Bissau por 3 dias.

Foi uma figura política importante, tendo lutado para a independência da Guiné Bissau através do PAIGC.

Foi uma líder de alto escalão político no país tendo passado por Presidente da Assembleia Nacional e Vice-Primeira -Ministra, entre outras posições.

 

 

 

Poemas Africanos para dias de frio

Poemas Africanos para dias de frio

Nos dias que correm, em que a brisa do mar bate forte como o rajar das ondas e as árvores abanam-se ao ritmo rápido do batucar do Tempo, nada melhor que poesia para acalmar a alma.

A poesia, o jogo das palavras, a dança sensual entre o sentir e o escrever ainda consegue transcrever o bater do coração poético em palavras. Hoje deixo a arte de falar escrevendo a eles, os poetas.


1. Adeus à hora da largada – Agostinho Neto

Minha Mãe

(todas as mães negras

cujos filhos partiram)

tu me ensinaste a esperar

como esperaste nas horas difíceis

 

Mas a vida

matou em mim essa mística esperança

 

Eu já não espero

sou aquele por quem se espera

 

Sou eu minha Mãe

a esperança somos nós

os teus filhos

partidos para uma fé que alimenta a vida

 

Hoje

somos as crianças nuas das sanzalas do mato

os garotos sem escola a jogar a bola de trapos

nos areais ao meio-dia

somos nós mesmos

os contratados a queimar vidas nos cafezais

os homens negros ignorantes

que devem respeitar o homem branco

e temer o rico

somos os teus filhos

dos bairros de pretos

além aonde não chega a luz elétrica

os homens bêbedos a cair

abandonados ao ritmo dum batuque de morte

teus filhos

com fome

com sede

com vergonha de te chamarmos Mãe

com medo de atravessar as ruas

com medo dos homens

nós mesmos

 

Amanhã

entoaremos hinos à liberdade

quando comemorarmos

a data da abolição desta escravatura

 

Nós vamos em busca de luz

os teus filhos Mãe

(todas as mães negras

cujos filhos partiram)

Vão em busca de vida.

 (Sagrada esperança)

2. O Chapinhar do tempo– Noémia de Sousa
Tempo para nascer

e também tempo para viver

e morrer

 

É preciso tempo

para crescer nas coisas sérias

nas coisas mescladas de harmonia

tempo para amar a miséria

e as lágrimas derramadas

nos púcaros sagrados da esperança

 

É preciso tempo

para ser aquilo que não nos deixam ser

e também tempo para vencermos

as fadigas e indômitas teimas

vazadas em catadupas

 

É preciso tempo

para se provar à humana criatura

a nossa valia o nosso fervor

na castiça mas chata caminhada

marca vida

 

É preciso tempo

para se repudiarem

ódio e inveja

arrogância e altivez

e também tempo

para nos identificarmos

com os labirintos crassos

emergidos da dor incompreendida

 

É preciso tempo

para incondicionalmente

aliarmos os redondeis

e valermos nas tempestades

como também nas honras e lisonjas

 

Como o chapinhar do tempo

nós seremos e sempre

a filosofia garante do tempo presente.

3. Para lá da praia – Alda Espírito Santo
Baía morena da nossa terra

vem beijar os pézinhos agrestes

das nossas praias sedentas,

e canta, baía minha

os ventres inchados

da minha infância,

sonhos meus, ardentes

da minha gente pequena

lançada na areia

da Praia Gamboa morena

gemendo na areia

da Praia Gamboa.
Canta, criança minha

teu sonho gritante

na areia distante

da praia morena.
Teu teto de andala

à berma da praia.

Teu ninho deserto

em dias de feira.

Mamã tua, menino

na luta da vida

gamã pixi à cabeça

na faina do dia

maninho pequeno, no dorso ambulante

e tu, sonho meu, na areia morena

camisa rasgada,

no lote da vida,

na longa espera, duma perna inchada

Mamã caminhando p’ra venda do peixe

e tu, na canoa das águas marinhas …
— Ai peixe à tardinha

na minha baía…

Mamã minha serena

na venda do peixe.

4. Em que Língua escrever – Odete Simão

Em que língua escrever.
As declarações de amor?
Em que língua cantar
As histórias que ouvi contar?
Em que língua escrever
Contando os feitos das mulheres
E dos homens do meu chão?
Como falar dos velhos

Das passadas e cantigas?
Falarei em crioulo?
Falarei em crioulo!
Mas que sinais deixar
Aos netos deste século?
Ou terei que falar
Nesta língua lusa
E eu sem arte nem musa
Mas assim terei palavras para deixar
Aos herdeiros do nosso século
Em crioulo gritarei
A minha mensagem
Que de boca em boca
Fará a sua viagem
Deixarei o recado
Num pergaminho
Nesta língua lusa
Que mal entendo
E ao longo dos séculos
No caminho da vida
Os netos e herdeiros
Saberão quem fomos

 

 

Amílcar hoje

Amílcar Cabral foi o líder da libertação de Cabo Verde e Guiné Bissau, assassinado a 20 de Janeiro de 1973 antes de ver a independência das (ex) colónias africanas de Portugal.

Agrónomo, revolucionário anti-fascista, guerrilheiro e panafricanista, Amílcar Cabral marcou a História pelo seu papel central na luta pela auto-determinação dos povos de Cabo Verde e de Guiné Bissau que viviam sobre o domínio português.

Como um dos fundadores do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné Bissau e Cabo Verde), foi um dos mais bem sucedidos líderes de uma revolução de guerrilha, tendo em algum momento dominado grande parte do território guineense (cerca de 70%) antes de Portugal concordar em ceder o poder a quem era de direito.

 

amilcar_cabral
Amílcar Cabral continua a ter impacto em movimentos contemporâneos. Fonte: Pambazuka

 

Enquanto estudante universitário em Lisboa, estabeleceu contacto com Agostinho Neto e Eduardo Mondlane que viriam a liderar movimentos de libertação em Angola e Moçambique, respectivamente.

Fez parte, em Lisboa, da Casa dos Estudantes do Império, que se tornou num centro de valorização das culturas africanas. Foi aí que se estabeleceu o contacto entre Cabral e outros intelectuais contemporâneos, tais como Marcelino dos Santos, Mário de Andrade, Noémia de Sousa e Alda Espírito Santo, entre outros.

Foi esta elite que deu origem ao Centro de Estudos Africanos e deu início ao processo de consciencialização das então colónias portuguesas, através do qual se estabeleceram movimentos de libertação.

Este pequeno grupo privilegiado de estudantes universitários oriundos de diferentes pontos do continente africano foi capaz de não só questionar a lógica colonial, mas mais do que isso, mobilizar forças para dar um fim definitivo ao colonialismo português.

badge
A união entre os movimentos de libertação foi uma peça central. Fonte: Via Atlântica

A ligação entre os movimentos de libertação foi de grande importância para o sucesso das lutas pela independência.
Mas Cabral destacou-se sobretudo pela sua articulação e pelo trabalho que fez como questionador do seu tempo, teorizando grande parte das suas visões para África.

O que mais marca Cabral é o papel que ele dá à valorização das culturas nativas. Segundo ele, a cultura é o fundamento da luta anti-colonial na medida em que só se libertam os povos que vêem a sua capacidade de criar e praticar cultura limitada.

Ou seja, a subjugação de uma cultura nativa face à imposição de uma cultura estrangeira é que obriga uma determinada sociedade a lutar pela sua libertação.

 

De uma forma alargada, muito daquilo que se fala hoje sobre a globalização e neo-colonialismo já tinha sido antecipado por Cabral. Só se pode dizer livre um povo que é capaz de negar influências negativas de outras culturas de modo a preservar a sua cultura e a sua identidade.

Na sua compreensão do mundo ele vai para além das ideias do Homem Novo que muitos movimentos revolucionários da época defendem, e projecta um resgate dos valores e hábitos tradicionais africanos.

Para ele é central o papel da cultura para a resistência anti- imperialista e daí a necessidade de criar espaço para a cultura, através da luta, restaurar as pessoas oprimidas e transformá-las em agentes completos da sua própria história e identidade.

 

“Nós queremos entretanto exprimir claramente o seguinte: nós não confundimos a nossa luta, na nossa terra, com a luta do povo português. Estão ligadas, mas nós, no interesse do nosso povo, combatemos contra o colonialismo português. Liquidar o fascismo em Portugal, se ele não se liquidar pela liquidação do colonialismo, isso é função dos próprios portugueses patriotas, que cada dia estão mais conscientes da necessidade de desenvolver a sua luta e de servir o melhor possível o seu povo.”

O desmoronamento do Estado Novo em Portugal, embora não fosse a finalidade do trabalho de Cabral e dos seus contemporâneos, acabou sendo um dos resultados da sua luta.

O colonizador inevitavelmente acabou sendo libertado pelo colonizado. Para Cabral, isso era previsível pois a revolução opunha mais os povos dominados aos dominadores, desafiando a própria essência da ditadura fascista, do que opunha o proletariado (colonizados) à burguesia (colonizadores).

Pode-se dizer, portanto, que não foi Portugal que libertou as colónias, mas sim foram as colónias que libertaram Portugal. Na medida em que através da defesa da sua auto-determinação e da exigência do reconhecimento da sua humanidade plena puseram em causa a própria natureza do Fascismo Português, destruindo-o.

 

cabral-and-fighters.jpg

É importante perceber como, para Amílcar Cabral, a luta armada pelo fim do colonialismo, não termina na declaração da independência. Para ele, era preciso compreender dilemas persistentes como a ligação cultural entre os povos africanos e o povo português (que ele sempre separou do Estado Português), bem como as ideias de construção de Estado num contexto de pan-africanismo.

Embora panafricanista, Cabral rejeitava a ideia de se tratar da África Negra como um espaço homogéneo. O panafricanismo de Cabral defendia as especificidades de cada nação africana e o seu estudo de forma isolada.

A dimensão de libertação de Cabral ia para além da auto-determinação a nível da organização política,mas passava também sobre a auto-descoberta da cultura nativa e do seu desenvolvimento. Por isso é tão importante revisitá-lo hoje, 44 anos após o seu assassinato.

O legado político de Amílcar Cabral vai para além do seu estudo crítico dos desafios e ameaças dos movimentos de libertação africanos dos anos 50 e 60.

Ao explorar as a centralidade da cultura e da identidade, bem como ao desafiar as noções de imperialismo e colonialismo, Cabral obriga-nos a observar o panorama social actual e a reconhecer padrões idênticos àqueles que ele lutou para derrubar.

O seu pensamento é relevante e contemporâneo para falarmos de apropriação cultural, de movimentos migratórios e de novas formas de domínio dentro do próprio continente africano.