Ainda sobre a violência

A construção de conceitos de masculinidade tóxicos começa nas nossas casas, mesmo antes dos nossos filhos nascerem.

Estou grávida. É menino. Logo vou a correr comprar uma mantinha azul e uns carrinhos para ele brincar.

Eu sei que ele adora super heróis, o seu quarto será decorado com o Homem Aranha. O tema da sua primeira festa será Super Homem, porque o meu filho é forte e invencível. Todos os seus brinquedos vão reforçar esta imagem dele próprio.

Quando ele for brincar de forma brusca com as amigas meninas, direi que é assim mesmo que se domina uma mulher. E se ele por ventura cair e se magoar, não o deixarei chorar. O que é isso? Homem não chora! Também não permitirei que meu filho seja um rapaz sensível, afinal de contas isso é coisa de mulher.

E terei o meu filho macho perfeito: forte; insensível e frio.

Desde cedo, os nossos rapazes aprendem que masculinidade é um estatuto desejado, pois representa poder, dominância, controle.

“O primeiro acto de violência que o Patriarcado exige dos homens não é violência para com mulheres. Em vez disso, o Patriarcado exige que todos os homens cometam actos de auto-mutilação psicológica, exige que eles matem as partes emocionais deles mesmos. Se um indivíduo não é bem sucedido em se mutilar emocionalmente, ele pode contar com os homens dos Patriarcado para praticarem rituais de poder que assaltarão a sua auto-estima.” – bell hooks

Embora aquilo que chamamos de masculinidade tenha também a sua componente biológica, requer uma constante validação social. Essa validação social basicamente comprova que para “ser homem” não basta “nascer” homem, há uma série de comportamentos e valores que a pessoa deve incorporar na sua vida.

Alguns dos comportamentos mais inofensivos e comuns que promovemos nos homens de modo a validar a sua masculinidade prendem-se com desporto; competitividade e sexualidade. Por exemplo, um homem muito macho geralmente pratica algum desporto e/ou tem várias parceiras sexuais.

Em contraposição, a construção da feminilidade é feita através da sensibilidade; da submissão e da emoção. Uma mulher que se preze é sensível, emociona-se facilmente (passando até por histérica ou louca) e submete-se ao poder masculino.

Sendo a masculinidade algo que só existe se for validado, é importante haver um ritual, um espectáculo. Por isso é comum o uso público da agressão e/ou violência, já que a força física é uma importante componente do conceito de masculinidade.

É geralmente através da força que muitos homens impõem a sua masculinidade na sociedade. E a presença constante da violência é a maior prova disso.

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Os ritos de iniciação são momentos em que se põe à prova, de forma bem clara, o que é permitido dentro desse espaço de “masculinidade”. Fonte: Afritorial

Como sociedade nós colocamos essas expectativas nos nossos homens. Somos cúmplices nessa construção de masculinidade que obriga os homens a silenciar o seu lado emocional e a colocarem-se no lugar de provedores invencíveis.

O que acontece então ao homem que não conseguir corresponder a tais expectativas? O que é do homem que não consegue provar vezes sem conta a sua masculinidade? O que faz o homem para preservar o ‘pouco’ que resta da masculinidade perdida?

É altura de questionar as interacções que ocorrem entre os vários intervenientes e em diversos contextos (casa; escola; trabalho; família; etc) que implicitam noções problemáticas de género e de poder.

Os homens de hoje são criados dentro de um espectro limitado de possibilidades. Através da socialização lhes é ditado o que é e não é permitido ser e sentir. As instituições e papaéis sociais já estão definidos e perpetuam mitos e estereótipos.

A boa notícia é que normas sociais são criadas por nós e por nós aprendidas. Nessa lógica, é possível desaprender também. É possível pensar em modelos de masculinidade que se baseiam em algo para além da força e dominância.

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Homens usam violência para ganhar poder e controle sobre alguém que consideram inferior na hierarquia social (seja mulher; alguém mais novo; filho; etc). Fonte: The African File

Enquanto não desafiarmos visões, valores e crenças que delimitam aquilo que é masculinidade e aquilo que é feminilidade, estaremos sempre a viver em situações perigosas tanto para os homens como para as mulheres.

Procurar mudanças nos conceitos de masculinidade (e por tabela de feminilidade) possibilitará a libertação dos corpos e vidas de mulheres que há muito são os campos de batalha onde estas forças se manifestam.

Uma nova forma de viver -e ensinar- a masculinidade é uma oportunidade para desenvolver nos nossos homens conhecimento e aptidões multi-dimensionais, que lhes permitirão serem pais, filhos, tios, primos, professores, médicos, dançarinos, cantores ou o que quer que eles queiram ser, mais presentes, mais sensíveis, mais compreensivos e sobretudo, mais humanos.

 

 

Precisamos de falar sobre a violência

Fulano espanca mulher até à morte. Sicrano é encontrado esfaqueado no seu carro. Mulher e filhos são mortos por ex-marido ciumento. Grupo de homens viola jovem vizinha.

Isto são apenas recortes de várias notícias e reportagens que já são habituais nos nossos jornais e revistas. Coisas que ocorrem com tanta frequência que de repente deixam de chocar e passam a fazer parte do nosso dia-a-dia.

É normal. Como sociedade concordamos que isto é o que temos e que pouco ou nada podemos fazer para mudar a realidade.

O que estará a acontecer connosco que está a permitir que a violência se normalize? O que estaremos a fazer para permitir que o abuso verbal, físico e/ou sexual continue a acontecer na nossa sociedade?

Vários pensadores; críticos; filósofos; sociólogos e outros investigadores sociais já se debruçaram sobre o tema. Estatisticamente falando, a violência como um todo é levada a cabo por homens. Independentemente do contexto social; económico; étnico; incluindo faixa etária e nível de escolaridade; os crimes mais violentos são na sua maioria cometidos por homens.

Porquê? Que relação existe entre violência e masculinidade?

Serão todos os homens violentos? Não. Mas todos os homens são criados na mesma sociedade patriarcal que exige deles um comportamento violento. Todos os homens são criados para acreditarem que têm acesso ilimitado à violência para reforçar o seu poder. Todos os homens são socializados para acreditar que o uso da violência está acima de qualquer direito ou dever que possam ter na sociedade.

Há um padrão de violência aí que não deve (nem pode) ser ignorado.

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O homem tende a cometer violência contra homens e mulheres para afirmar ou reforçar a sua masculinidade. Fonte: Rede HOPEM

O conceito de masculinidade está intimamente ligado à força e à violência. Temos aquela imagem do homem ideal caçador; protector da família; provedor; forte; atlético; disposto a tudo para defender os seus ideais. Esquecemos que esse homem ideal é capaz de coagir; forçar; manipular; violar; abusar; se fizer uso (ou ameaçar o uso) da violência.

Nos casos de violência doméstica acrescenta-se aqui uma série de estruturas e condutas aceitáveis que facilmente podem sair do limite do saudável.

Há uma glamourização de comportamentos abusivos como o ciúme excessivo; a possessão disfarçada de preocupação; a própria dinâmica de poder entre o casal em que da mulher espera-se submissão e do homem dominação; entre outros sinais que podem por si indicar que o relacionamento não é saudável.

Por outro lado, nós como mulheres somos socializadas para ter uma atitude de auto-sacrifício e resignação face à ‘natureza’ e manutenção dessas dinâmicas nas relações.

Acrescentamos ainda a este “conto de fadas” as pressões sociais e expectativas associadas ao casamento e todo o estigma em torno do divórcio.

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A violência doméstica é normalizada. Fonte: A Verdade

Quando falamos em criminalidade e violência geralmente vemos como cara das estatísticas mulheres pobres, de bairros suburbanos ou zonas rurais com pouca instrução escolar. Olhamos para essas mulheres como as vítimas perfeitas, já que vivem desprovidas de conhecimento sobre os seus direitos e sem apoio para saírem das relações abusivas em que se encontram.

Mas a verdade é que a violência doméstica é um fenómeno que afecta famílias de todos os backgrounds sociais; económicos; étnicos; etc.

No ano passado, a filha de Graça e Samora Machel, Josina Machel, chegou-se à frente relatando que tinha sido vítima de um relacionamento abusivo, tendo perdido a visão no olho direito como resultado de uma agressão que sofreu pelo parceiro.

Esta semana nos chocou o assassinato de Valentina Guebuza, filha do ex-Presidente da República Armando Guebuza, baleada pelo seu próprio marido.

Seria fácil apontar estes como casos isolados, mas infelizmente não é assim. Estes chamam à atenção por mostrarem mulheres emancipadas financeiramente, de famílias privilegiadas, que vivem em locais seguros e com todos os serviços à sua disposição mas que ainda assim não escaparam às teias manhosas da violência doméstica.

A violência doméstica pode acontecer com todo mundo. Acontece com mulheres de diferentes raças, de diferentes níveis educacionais, de diferentes classes sociais. Olhe para mim. Eu perdi um olho. Há tantas outras que perdem a vida. Pelo menos eu pude contar a minha história.Josina Machel

A verdade é que precisamos desses casos mediáticos e sensacionalistas para apontar o dedo à monstruosidade do mundo e esquecer que ela existe nas nossas casas, nas nossas relações e em nós mesmos. Precisamos desse sensacionalismo para validar que esses monstros são desconhecidos e não os nossos pais, primos, vizinhos, colegas.

São situações complexas e demasiado delicadas e por isso é mais fácil olhar desta forma simplificada em que as coisas são pretas e brancas. Ninguém quer olhar para si mesmo e reconhecer padrões de violência, mas eles estão lá.

Nos jornais colocam-nos os agressores como homens sui generis sem estrutura emocional para viver na nossa sociedade. Nós, como espectadores, esperamos desse criminoso toda a crueldade e frieza que possa colocá-lo numa ‘caixa’ catalogada como “monstro/ psicopata/ sociopata/ doente/ etc”.

E por sua vez, a esse criminoso atribuímos a tal vítima perfeita. Precisamos de uma vítima indefesa e frágil para nos colocarmos acima dessa posição e por isso, acima da situação como se algo idêntico apenas acontecesse longe da seguranças das nossas vidas.

Depois de todas as capas de jornais; debates online; programas de TV; reportagens e afins, voltaremos ao nosso conformismo. Voltaremos a acreditar na inocência da violência burguesa.

Quando os nossos filhos baterem nos colegas, diremos que é normal por serem rapazes. Quando as nossas filhas forem assertivas, diremos para elas serem menos intimidantes. Quando ouvirmos gritos de discussões nas portas ao lado, viremos as costas porque “entre marido e mulher não se mete a colher”. E continuaremos na nossa vida até reaparecer um caso idêntico para nos puxar à realidade.

 

 

 

 

 

The female condom and feminism: love or contradiction? (Part II)

My first experience with the female condom was couple of months ago. I was approached by a sales promoter of the Cupid on my way home and she convinced me to buy it: I bought two, one for me and another for a very close friend of mine.

For weeks I would stare at the package, squeeze it and read the instructions. The curiosity was either going to kill me or make me stronger, so I decided to try it.

My male partner had never used a female condom before either, so we made the executive decision to start off with the male condom and then swapping to the female condom. I didn’t feel at ease inserting it by myself, so I asked him to do it. I figured that if a woman can insert a male condom on her partner, why can’t the opposite happen?

Even though I had read the instructions many times before, we had to actually stop for a few minutes and read them again. The thing has 10 steps, 8 of which being directly connected to its insertion and use! It was only then that I realized that the sponge stays inside the entire time. We managed to get it right eventually but then there was another problem: something was hurting the penis- I’m guessing it was the sponge- and it was too uncomfortable so we went back to the male condom after a couple of minutes.

I was disappointed at it: too much discomfort and not that much fun, after all. The friend I bought the other condom for has yet to try hers and I’m guessing she never will.

Other friends gave it a try and the stories are not that different from mine.

On a conversation, one friend rhetorically asked why the sponge on the Cupid had to be so big. She says it was painful to put it in, in fact, she too asked her boyfriend to help her, but the worst part was taking it out because the sponge goes out opened.

For men who enjoy giving and women who enjoy receiving oral sex, it can be challenging since a significant part of the vulva remains covered and female condoms usually are not flavored. Although based on my personal experience, this is not a deal breaker, in fact, some guys will be happy to use this as an excuse not to perform oral sex – but this is another post, for another day.

What could be a deal breaker though, is the fact that, according to our male partners, the female condom acts as an obstruction to feel the woman’s lubrication. Whereas the male condom hugs the penis not affecting its sensitivity, the female one stands loose, making it difficult to assess the woman’s sexual arousal.

A third friend, that tried after that conversation, based on the things she had heard decided to surprise her boyfriend, inserting it before they were together. She said “It’s not a matter of having a device that CAN be inserted hours before use; it SHOULD be inserted hours before, actually because it will take you quite a while to get it right.” She adds that she had to use a significant amount of lube. For her boyfriend it didn’t appeal him visually, they don’t plan on repeating the experience.

Sexual intercourse is about mutual pleasure, but the design of the FC seems to inhibit pleasure for the women due to the stress of having to hold it, as a recent study in South Africa points out. Said study highlights that using a condom for the prevention of pregnancy or infections or HIV/AIDS should not mean that the women are not free to enjoy their sexuality.

The experience of sex when wearing a female condom should be as important as the sense of self-empowerment. Regardless of condom performance or efficiency, sex is supposed to be fun and easy, not full of preparation and mechanical maneuvers.

As a feminist myself, I do believe in giving women the correct tools to engage in honest and opened conversations with their partners about their sexuality. For us, women that don’t have problems discussing the topic of sex with our partners; our schoolmates; friends; doctors and more and more with our sisters and/or mothers, the experience of the female condom was a materialization of our sexual freedom: we wanted to try something different; we had the option to do so and we didn’t feel bad about it.  Our male partners were a big part of the decision to use the female condom and even helped, just like this other lady so we should engage men more.

Personally I think healthy sex lives, and ultimately healthy relationships, have to be based on effective communication and fair negotiation and this too has to be part of the feminist agenda along with the female condom. If the female condom acts as a counter attack for women whose partners refuse to use the male condom, than we’re only legitimizing toxic and hostile environments.

There can’t be a Feminism without choice, and in that sense an option for the male condom is a better option than no option at all, and of course, people should try it for themselves and make their judgments. However we should do better than the current available female condoms there is and the female condom has to be a part of a larger strategy to empower women to engage in healthier relationships.

Maybe a male condom is a much better feminist condom than the female one: it causes no discomfort; it’s marketed at both men and women, encouraging couples to share the responsibility; and most of all, it comes in enough shapes, sizes, textures and materials to accommodate everyone’s needs.

Read the Part I here.