O mundo se despedaça

Ou Things Fall Apart, geralmente em África. Quase sempre em África.
Neste clássico da literatura africana, Chinua Achebe nos traz a história de Okonkwo, um famoso guerreiro Igbo e como a sua vida muda com a chegada dos primeiros missionários britânicos à Nigéria, no  início do séc. XIX.
No livro, o autor consegue resumir as complexidades das sociedades Igbo da época, incluindo provérbios e fábulas, bem como rituais e deuses locais no seu discurso. Ao mesmo tempo, sente-se que essas sociedades transpiram um certo cansaço e vontade de questionar os seus costumes.
Somos constantemente forçados a escolher um lado: o tradicional ou o moderno; o colonialismo ou o tribalismo; o animismo ou o Cristianismo; o masculino ou o feminino; a ignorância ou a consciência. Várias tensões nascem destes contrastes.
18190809.jpg
Okonkwo ganhou fama ao ganhar uma aldeia rival em Luta Livre.
Okonkow, o personagem principal é nesse sentido a maior antítese da história.
Ele é um homem misógino, extremamente violento, esposo e pai abusivo, impaciente e intolerante, ambicioso e acima de tudo, tradicionalista.
Um homem que conquistou os seus títulos e respeito com brutalidade. Sem herança do seu pai para ajudá-lo. Colecionador das cabeças das suas vítimas. Ele representa tudo aquilo que a sociedade Igbo exigia do homem da altura.
Ironicamente, ele também sofre bastante sendo um homem Igbo: primeiro, é obrigado a matar o seu filho adoptivo. Mais tarde, é enviado para o exílio durante 7 anos para pagar por um crime que cometeu involuntariamente. E com a chegada dos britânicos, vê-se obrigado a desonrar o seu filho mais velho quando ele se converte.
E porque ele teve de se auto-mutilar emocionalmente, de lutar para ser essa pessoa, ele queria preservar a estrutura que lhe dava poder. Ele não queria mudar as suas visões conservadoras e ser obrigado a confrontar-se com todas as suas imperfeições.
Okonkwo queria garantir a preservação e manutenção da sua masculinidade e da sua posição na sociedade em que estava inserido.
Contudo, apesar das suas falhas – e não são poucas! – Okonkwo é apenas um homem que quer o melhor para a aldeia Umuofia e vê esse futuro ameaçado com a crescente comunidade cristã na região. Numa passagem, ele diz aos outros homens poderosos da aldeia:
“The white man is very clever. He came quietly and peaceably with his religion. We were amused at his foolishness and allowed him to stay. Now he has won our brothers, and our clan can no longer act like one. He has put a knife on the things that held us together and we have fallen apart.” 
 
O homem branco é muito espero. Ele veio calma e pacificamente com a sua religião. Nós nos divertimos com as suas palhaçadas e permitimos que ele ficasse. Agora ele convenceu os nossos irmãos e o nosso clã já não é unido. Ele pôs uma faca nas coisas que nos uniam e nós nos dividimos.
Ao chegar às aldeias, o Cristianismo ofereceu refúgio e amparo àqueles que na sua comunidade viam-se marginalizados ou eram isolados, como eram os gémeos (que se acreditava serem uma maldição); as mulheres incapazes de ter filhos e os homens sem terra nem títulos, entre outros.
Por outro lado, ao desmascarar todos estes mitos e a impôr a Bíblia como base para se aplicar a Justiça, o Cristianismo criou conflitos, separando famílias e tirando a dignidade de muitas pessoas respeitadas na comunidade.
tfa5
Praticantes de luta livre na Nigéria. Foto: Jack Picone

Achebe é dos mais premiados e célebres autores africanos.

Através dele, somos obrigados a confrontar a inevitabilidade de mudança das sociedades Igbo da época. No entanto, a violência com essas mudanças foram traçadas e as soluções impostas são igualmente colocadas em perspectiva.
Para o autor, o que se perdeu foi dignidade e isso é o que se deve reconquistar.
“The worst thing that can happen to any people is the loss of their dignity and self-respect. The writer’s duty is to help them regain it by showing in human terms what happened to them.”
 
A pior coisa que pode acontecer a qualquer povo é a perda da sua dignidade e respeito próprio. O dever do escritor é ajudar a reconquistá-los mostrando de uma forma humana o que aconteceu.
E o que foi que aconteceu?
África como uma força com vontade própria e modelos políticos e religiosos sólidos, deixou de existir. Acabou. Finito.
As regras, espíritos, deuses, nomes, datas, lendas e tudo o que faz parte do imaginário de qualquer sociedade foi gradualmente apagado.
No fim, não importa se os colonos eram gentis ou brutos; se eram tolerantes ou vingativos; se chegaram com armas ou com a bíblia. Importa o facto da sua presença ter colocado em causa a ética, filosofia e governação das sociedades Africanas.
Importa o facto dos colonos terem sido intransigentes e austeros na sua presença. Mataram. Roubaram. Bateram. Expulsaram.
A voz de África se silenciou.
O fim trágico com que se fecha a última página do livro deixa claro como a assimilação, total ou parcial, da cultura, hábitos e filosofia dos invasores britânicos mudou para sempre o destino dos Africanos, mesmo daqueles que mais se opuseram ao colonialismo como foi Okonkwo.

Efuru e o dilema da “Boa Mulher”

Como pode uma jovem se encaixar num padrão de “boa mulher” numa sociedade que nunca se satisfaz?

12961610_10153996600625390_3130144373034788956_nTerminei há alguns dias de ler este livro que retrata a história de uma mulher chamada Efuru numa vila Igbo na Nigéria antes da independência.

Durante a sua vida, Efuru sofre uma grande pressão para se encaixar no padrão de “boa mulher”.

Nas suas relações amorosas, ela mostra-se disponível e prestativa. Sempre demonstrando afecto e mantendo uma boa relação com todos os envolvidos.

Na família é bem vista e procura sempre ajudar todos ao seu redor.

No entanto, no desenrolar da história é evidente que ela jamais será completamente feliz procurando ser essa “boa mulher”.

Mesmo quando encontra alguém e eles têm uma relação muito boa, saudável e invejável, as pessoas da sua vila condenam o relacionamento alegando atropelos à tradição, pois o casal deve dormir em quartos separados; têm tarefas específicas para a mulher e para o homem e  sofrem pressão para ter um filho, entre outros aspectos.

O conceito de “boa mulher”, no contexto africano exige super poderes: maternidade; altruísmo; amor incondicional; força física e emocional; perdão; etc.

Esse conceito arranca-nos a humanidade, a capacidade de cometer erros; de chorar; de ter sonhos próprios. E como uma mulher negra eu sinto essa pressão diariamente: Estuda. Casa. Tem filhos. Sê bem sucedida, mas não demais. Respeita o teu esposo. Respeita os teus pais. Dá tudo aos teus filhos. Sê paciente. Não mostres sofrimento. Suporta toda a dor. Mantem-te como sempre foste.

 

Até quando?